Quinta-feira, 30 de Março de 2006

DEFINITIVAMENTE TALVEZ

 

 

Era tão doce, e não é por acaso que só poderia trabalhar numa pastelaria. No princípio, chegava a ir lá mais que três vezes numa só manhã, e tudo isso para poder observá-la, de um lado para o outro, atendendo clientes. Adorava vê-la mexer-se e, naquela altura, aposto que sabia de cor todos os seus movimentos. Aquele sorriso cativava qualquer um, e a prova estava na quantidade de homens que enchiam a pastelaria por aqueles dias. Não sei precisar, mas penso que iniciámos conversa por causa da receita de uns scones. Agora que penso nisso, eu nem gostava de scones, mas tudo me sabia bem desde que fosse servido por ela. E foi assim, com doçarias à mistura, que fomos conversando e alimentando uma amizade confinada ao espaço daquela pastelaria. Até que um dia arrisquei e convidei-a para um encontro fora do seu trabalho, ao qual ela acedeu com mais entusiasmo do que eu estava à espera. Não tardaram pouco mais tarde, os cinemas, os passeios e por fim as noitadas. Daí para a cama foi um ápice e também o início de algumas das mais memoráveis fodas que já dei, ou porventura tenho memória de ter dado. É claro que depois de mais umas quantas tardes bem montadas e outras noites mal dormidas por tão bem fodidas, gerou-se aquele vazio incontornável neste tipo de relações. Não tardou muito, e em pouco tempo terminámos tudo. Não haveria nada mais para além disso? Bem vistas as coisas, é muito estranho, pois ambos gostavam imenso da companhia um do outro… E em todo esse tempo, não nutriam qualquer tipo de sentimento entre ambos ou algo mais intenso como uma paixão? Não, absolutamente nada. Apenas gostávamos de estar juntos, principalmente na cama, nada mais do que isso. Há certas mulheres na nossa vida que só existem na mais recôndita das nossas lembranças. É aquela mulher que passa mas não fica e que definitivamente não dava para mais.

 

 

Era um pouco arisca a miúda, e tenho a certeza que foi por essa razão que lhe achei imensa piada desde o início. Não se pode dizer que nos compatibilizámos à partida, até porque ela não simpatizou logo comigo, mas com o tempo encetámos tréguas. Sendo pertencentes ao mesmo grupo de amigos, acabávamos por passar muito tempo juntos, como também frequentávamos os mesmos locais. E estou em querer que foi numa qualquer festa de alguém, de quem não me recordo, que encetámos a nossa primeira conversa com mais de cinco minutos e sem ninguém a intrometer-se. Naquela dinâmica entre copos e danças, gerou-se uma aproximação quase instantânea e mais parecia que só estávamos os dois no meio daquela multidão. É bem verdade que até àquela ocasião, ela para mim não era mais que uma rapariga demasiado magra e com muito poucos argumentos para me chamar a atenção. Contudo, nesse dia, não só me chamou a atenção como me despertou a tesão. Naquele misto de luzes, som e sorrisos, decote com suores e bebidas de absinto, encostámos os nossos corpos como se estivessem despidos. Mas não demorou e foi assim que tudo acabou, que é como quem diz, começou. A primeira demos no carro, a segunda em casa dela, a terceira não me lembro, a quarta também não e creio que, numa dessas primeiras, íamos sendo apanhados. Porém, foram todas boas fodas e somente num determinado momento deixaram de o ser para nunca mais o serem. Não sei ao certo porquê nem tão pouco me lembro quem fez o quê, ou não o fez de todo. Apenas sei que encarámos essa conjuntura como uma boa oportunidade para nos afastarmos, e assim foi. Neste caso não há muito para dizer pois é por demais evidente que era uma relação fugaz com termo certo. No entanto, achas que eras capaz de repetir a experiência, porventura com outra? Talvez, é uma hipótese.

 

 

Era a mulher mais bonita daquele grupo e conhecia-a por mero acaso numa esplanada qualquer. Ela andava nos copos com um grupo de colegas e eu estava também por ali com um bando de amigos, até que nos imiscuímos com aquelas mulheres. Fixei-me de imediato nos seus olhos verdes e nos longos cabelos escuros, e comecei logo no cerco com a minha melhor cartilha de conversas da treta. Nessa noite só lhe soube do nome e do número de telefone, contudo arranquei-lhe algumas gargalhadas. Foram precisos alguns cafés depois do expediente e mais uns quantos jantares para finalmente a levar para a cama. Valeu a pena o mês de persuasão e surpreendeu-me pela positiva, fodiamos como se não houvesse amanhã. Durante alguns meses pouco mais tenho a acrescentar sobre a nossa relação, embora já houvesse uma certa seriedade em tudo aquilo. De tal forma, que me propôs vivermos juntos, contudo declinei na altura mas resolvi ceder mais tarde. Erro crasso, irremediável e pouco sensato da nossa parte. Descobrimos que éramos completamente incompatíveis e retomámos ao ponto de partida. No entanto, não nos separámos e mantivemos os encontros ocasionais e sexuais, até porque ela continuava a viver na casa que antes partilhávamos. Todavia, chegámos à conclusão que não valia a pena prosseguir com aquela relação e pusemos-lhe um término. Agora que o tempo te permite analisar doutra forma essa relação, não achas que ficas sempre mal na fotografia? Já reparaste que guardas com enorme entusiasmo as lembranças das tuas conquistas, e que pouco te recordas do conteúdo dos relacionamentos? Acho normal que assim seja, há sempre um encantamento evidente pelos primórdios das relações, que por serem novidade nos predispõem para a constante conquista. Não é que eu não me lembre do resto da relação, mas definitivamente não lhe dou tanta importância.

 

 

Era bem mais velha do que eu, embora eu nunca tenha ligado a esse tipo de preconceitos. Conhecemo-nos numa exposição de arranjos florais por intermédio de um amigo meu, de quem ela era conhecida. Jantámos os três nessa noite e a dada altura do jantar tive que ser discreto mas conciso para com ele. Então ficámos só nós os dois, pois ele lembrou-se que tinha um compromisso urgente, logo tinha que nos deixar. Conversámos e brindámos pela noite dentro, até chegarmos àquele momento constrangedor em que não sabemos como dizer o que desejamos propor. Valeu-me os seus quarenta e um anos e o seu poder de decisão, e fomos para casa dela. Não esteve com demoras e eu muito menos, fomos direitos ao quarto, para cima da cama. Foi impaciente e breve mas mesmo assim uma boa foda. Conversámos, fodemos e conversámos, fodemos. Durante quase um ano foi assim e em todo esse tempo fui-me apegando à sua amizade, ao seu companheirismo, viciei-me no seu corpo e no seu intelecto, e houve um certo dia que me declarei apaixonado por ela. Pediu-me para não o repetir e disse-me que aquele era o momento exacto para se despedir. Não te sentes mal por teres sido abandonado? Não, pelo contrário, embora reconheça que na altura meti os pés pelas mãos. Precisava de alguém que também precisasse de mim mas cometi o erro de escolher quem não precisava de ninguém. Não será o teu orgulho a falar mais alto, escondendo esse teu ponto fraco? Nada disso, apenas me equivoquei, quis agarrar-me a ela, embora pudesse ser outra qualquer. Sabes, o amor é uma doença quando nele pensamos encontrar a nossa cura. Mas isso, dizes tu agora... Dizemos os dois, afinal somos iguais, não és a minha consciência nem tão pouco melhor do que eu, somos a mesma pessoa. Repetias tudo de novo ou preferes expurgar o passado num monólogo? As duas coisas, talvez.

 

 

Um abraço...

SHAKERMAKER

 

 

Este texto também poderá ser lido na próxima edição do Jornal de Letras em Abril, cortesia de Bruno Manaia. Obrigado.

 

 

honky tonk women por shakermaker às 00:00
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