Domingo, 21 de Maio de 2006

ATROZ DE MORDAZ

Sabes, não me conformo ao ver-te aqui deitada e eu sem poder fazer nada. Se ao menos eu soubesse como te sentes talvez ficasse mais descansado e saberia ao certo se vale a pena ficar aqui do teu lado. Como deves calcular, eu tenho coisas mais bem interessantes para fazer do que ver-te padecer ou porventura sofrer. Não é que eu não te queira aliviar o sofrimento, mas preferia estar noutro lugar do que neste bloco de internamento. Já reparaste como esta sala cheira mal e como parece mórbida sem claridade suficiente para sequer ler o jornal… Ainda por cima, não deixam sequer abrir uma janela, pois sempre podia apanhar um pouco de ar ou até mesmo fumar um cigarro. Não vejo a hora de terminar a hora da visita, e mais uma vez, só vim aqui perder o meu tempo pois tu não reages a nada do que te digo. Eu bem tento despertar os teus sentidos como me pediu o médico mas tu não estás a colaborar nada.

Está tão impávida e serena, a minha pequena.

Querida, será que, quando tu acordares, ainda me vais reconhecer? Pode ser que tenhas uma amnésia ou daquelas crises de identidade após recuperares do coma. Eu até suporto que não te lembres de mim pois da mesma forma também esquecerias todo o mal, que dizes, que te faço. O que na verdade foi sempre um exagero da tua parte pois levas muito a peito tudo o que te digo da boca para fora. Meu doce, eu estava a brincar quando disse que te partia os dentes todos. Achas mesmo que eu seria capaz de tal coisa, logo a ti que tens uns dentes tão perfeitos e bem tratados… É o que eu me canso de te dizer: não devias fazer caso das ameaças que te faço quando estou irritado. Até porque, bem vistas as coisas, a culpa é tua pois chateias-me a cabeça com as tuas crises de ciúmes. Por falar nisso, acho que vou chamar aquela enfermeira toda boa para te pentear o cabelo e limpar-te um pouco o rosto.

Está tão pálida e melena, a minha pequena.

Linda, até quando vais permanecer nessa inércia sem qualquer sinal de melhoras? Não tenho feito outra coisa nos últimos dias senão ficar enclausurado neste hospital esperando que me dês mais do que esse ténue sinal de vida. Já estou a ficar cansado com tudo isto, e se o teu estado não se alterar, vou deixar de te visitar. Talvez não te tenhas apercebido, mas houve alturas em que desejei que morresses ou simplesmente desaparecesses. Todavia, nunca quis que sofresses como aparentas estares a sofrer, sempre te almejei uma morte súbita e pouco dolorosa. Eu próprio, mais do que uma vez, pensei em fazê-lo, porém não quis sujar as minhas mãos com o teu sangue. Mas isso pertence ao passado, do tempo em que me fazias a vida num inferno. Entretanto, redimiste-te, e posso dizer que por vezes até me fazes feliz. Meu amor, já te disse que hoje estás muito bonita? Tenho saudades de foder contigo. Por mais que te possa parecer absurdo, sinto o calor do teu corpo em contraste com a frieza do teu coração.

Está tão temperada e amena, a minha pequena.

Um abraço...

SHAKERMAKER

Dedicado a mim, claro está...

Pelo gozo que ainda me dá em escrever para o HTW ao fim de três anos.

honky tonk women por shakermaker às 00:00
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